Estamos no tempo onde a pressa e a urgencia são mais importantes do que o toque e a atenção, onde a rapidez é considerada como o item essencial, mas infelizmente estamos perdendo coisas simples e suaves com a super valorização da prontidão.
Lembro-me com saudade do tempo onde a escrita de uma carta nos colocava abertos de coração para o outro que a receberia.
Era mais ou menos um ritual, papel escolhido com cuidado, a caneta, a cor da tinta, se era uma carta de amor poderia ser perfumada e ganhar um leve beijo de batom.
O lugar onde essa carta seria escrita era escolhido com muita atenção.
Teria uma música ao fundo, seria inspiração?
Ah! Não existe nada mais completo do que o ato de escrever uma carta.
Pensa-se em todos os detalhes. A carta reproduz o seu momento, a letra não disfarça o que se sente, mostra e desnuda o seu pensamento quase imediatamente.
Podemos chorar escrevendo uma carta, transmitir amor, conforto, esperança, carinho, atenção.
Ao segurar a caneta, transferimos por nossas mãos o que nos sai da alma, reproduzimos em letras nosso pensamento.
Rubem Alves coloca que " Cartas de amor são escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel", lindo e verdadeiro.
Qtos namorados choraram ao receber cartas sem ao menos abri-las! Beijaram o envelope como se beijassem o amor distante.
Escrever uma carta encerra em si o ritual de escolher a melhor palavra, mandar uma pétala de rosa, uma foto, inclui no ato a ansiedade da espera, do desejo de novamente acolher o papel bendito que o outro tocou. Sim, existem cartas tristes, óbvio! Porém o que fica sempre é a emoção.
Lembro-me que no natal as pessoas se presenteavam com cartões de natal, a árvore ficava repleta. Lindos tempos, idos tempos?
Aguardar o carteiro, mensageiro de notícias distantes, era o momento mais desejado e esperado do dia, hoje esse mensageiro foi relegado ao posto de entregador de cobranças, cartões, revistas, poucas vezes de uma carta perfumada e querida.
Saudosista eu?? Não sou não.
Eu sou feliz por ter vivido num tempo onde se dava mais importância ao ato simples, puro e intenso de escrever e enviar cartas e mais feliz ainda por poder relatar isso aqui. E-mail, sms, torpedo, excelente, ótimo, rápido... mas nunca substituirá as cartas que pude cheirar, que pude guardar, que pude esperar, só quem escreveu e recebeu sabe o que digo!
